Anonimato na avaliação psicossocial: o piso de 10
A avaliação de risco psicossocial da NR-1 é respondida pelos próprios trabalhadores, e cada resposta pode carregar o departamento de quem respondeu. É esse rótulo que permite que o relatório saia setor por setor, que é a parte que um comitê usa: um índice único da empresa diz que existe um problema, não onde agir.
O mesmo rótulo é o que cria o risco: se o relatório detalhasse um setor de três pessoas, bastaria o organograma para saber quem respondeu o quê. Por isso a quebra por departamento só é publicada quando o departamento tem ao menos 10 respondentes. Este post explica como esse piso protege o anonimato na avaliação psicossocial, onde ele não basta sozinho, e o que muda quando a empresa inteira tem poucos respondentes.
O que o piso faz
Um departamento com 10 respondentes ou mais entra na quebra com o pacote completo: índice geral, faixa de risco, os 6 domínios, as 28 dimensões e a lista de dimensões em faixa alta. A única exceção são as quatro dimensões de comportamento ofensivo, explicada mais abaixo: no setor, elas aparecem só com a faixa. Abaixo de 10 ele não é escondido, ele é somado: vai para um único agrupamento chamado Outros, junto com as respostas que não trazem departamento nenhum, que caem ali sempre, independentemente de quantas sejam.
Outros não é uma etiqueta colocada por cima dos setores pequenos. O agrupamento é pontuado de novo a partir das respostas somadas, questão por questão, e não pela média das médias dos setores que entraram nele.
E o agrupamento também precisa alcançar 10 respondentes para ser publicado, pelo mesmo motivo. Se todos os setores alcançam o piso, não existe linha Outros.
Por que esconder o setor pequeno não bastaria
Omitir o setor pequeno não protegeria ninguém. O consolidado da empresa é publicado sempre e os setores grandes ficam visíveis, então o que sobrou sai por subtração: o número de respondentes do grupo omitido é o total menos a soma da tabela.
E não para no número de pessoas. Cada dimensão publicada vem com quantas respostas a alimentaram e com a distribuição dessas respostas pelos cinco pontos da escala. Distribuição é contagem, e contagem é aditiva: a distribuição do grupo omitido é a distribuição da empresa menos a dos setores visíveis. O resultado do setor escondido não fica escondido, ele fica calculável. Isso se chama divulgação complementar, e é a razão de suprimir uma célula só nunca bastar quando os totais são publicados.
É por isso que os setores abaixo do piso são somados em Outros em vez de omitidos, e por isso Outros também precisa alcançar o piso. Enquanto o agrupamento tiver alguém e ainda estiver abaixo de 10, o menor setor visível é somado a ele, e a conta se repete. Um setor confortavelmente acima do piso pode sair da quebra por causa do tamanho do resto.
Um exemplo ilustrativo, com números inventados mas com a forma que a regra realmente toma. Cinco setores respondem: 34, 22, 14, 8 e 5. Os dois últimos ficam abaixo do piso e vão para Outros, que soma 13 e alcança o piso. A quebra publicada tem três setores e um agrupamento, e nada foi omitido: o que estava abaixo do piso está somado.
Agora tire o setor de 8 do cenário. Outros fica com 5, abaixo do piso. O menor setor visível, o de 14, é dobrado para dentro e Outros passa a 19. O setor de 14 não saiu por ser pequeno, saiu porque era o que faltava para o complemento fechar. Se nem dobrando sobrar setor algum acima do piso, a quebra inteira sai do relatório.
Isto tem nome: k-anonimato
Todo grupo publicado tem ao menos 10 respondentes, então nenhuma linha do relatório descreve um grupo em que uma pessoa possa ser isolada por eliminação. É k-anonimato aplicado a uma tabela, com k igual a 10. A regra do complemento, da seção anterior, é a parte que costuma faltar nas implementações: sem tratar o complemento, o k vale para as linhas que você imprimiu e não vale para a que você apagou.
O piso conta respondentes, não funcionários: um setor de 40 pessoas em que 6 responderam está abaixo dele, porque quem pode ser identificado é quem respondeu, e o grupo a proteger tem o tamanho da participação, não o do organograma.
O k-anonimato, formalizado por Latanya Sweeney em 2002, tem um limite conhecido, que é o ponto de partida do trabalho sobre l-diversidade: ele protege o pertencimento ao grupo, não o atributo de cada pessoa. Se uma resposta é rara, a própria resposta vira o identificador. É o caso das quatro dimensões de comportamento ofensivo (assédio sexual, ameaças de violência, violência física e bullying), que têm uma pergunta cada. Num setor de 10 pessoas, uma única resposta no extremo de “sofreu assédio sexual” não esconde ninguém, porque quem gerencia aquelas 10 pessoas muitas vezes consegue ir de “alguém deste time” a um nome. Por isso, na quebra por setor, essas quatro dimensões aparecem só com a faixa, sem nota e sem distribuição. Elas continuam listadas, porque o fato de terem sido sinalizadas é informação de que o comitê precisa.
O que continua saindo
O piso não segura o documento, só a quebra por departamento. O relatório consolidado sai sempre, em qualquer número de respostas. Numa empresa com 10 respondentes ou mais, nele estão a cobertura da pesquisa, o índice geral e a faixa, os 6 domínios, as 28 dimensões com suas distribuições, o resultado questão por questão, a lista de dimensões em faixa alta, a comparação com a campanha anterior e o plano de ação.
Isso é deliberado. Uma empresa pequena não perde o documento por ser pequena: recebe o consolidado, e o que não recebe é uma quebra que apontaria para os seus próprios funcionários. O que muda quando a empresa inteira é um grupo pequeno está na próxima seção.
Empresas pequenas: o que muda com poucos respondentes
A plataforma não impõe um número mínimo de colaboradores. O que muda com o tamanho é o que o relatório consegue mostrar sem expor ninguém.
A quebra por setor quase sempre fica de fora. Para haver quebra, cada setor publicado precisa de 10 respondentes, e o agrupamento Outros também, quando existe. Uma empresa com menos de 20 respondentes distribuídos em mais de um setor, portanto, não terá quebra. Isso não é falha: é a regra da seção anterior funcionando.
O consolidado sai, e avisa quando os números são frágeis. Com poucas respostas, o próprio relatório traz a marcação de confiança estatística baixa. Ele não é retido, porque a empresa precisa do documento, mas também não finge uma precisão que não tem.
Abaixo de 10 respondentes na empresa inteira, o consolidado vira o grupo pequeno. Numa empresa de seis respondentes, o consolidado descreve seis pessoas, e a resposta rara identifica do mesmo jeito que identificaria num setor. Por isso, nesse caso, as quatro dimensões de comportamento ofensivo aparecem também no consolidado só com a faixa, e saem da lista questão por questão. Com pouquíssimas respostas, a lista questão por questão não é publicada em nenhuma dimensão: com uma pessoa só, a média de uma pergunta é a resposta dela.
Duas coisas continuam valendo para quem lê. Um relatório de poucas pessoas deve ser lido como retrato coletivo, nunca como ferramenta para descobrir quem respondeu o quê. E vale dizer isso aos trabalhadores antes da rodada: o que a empresa vai ver, e o que não vai.
Sobre o enquadramento legal: a NR-1 tem um item próprio de tratamento diferenciado para o MEI, a microempresa e a empresa de pequeno porte (item 1.8 do texto consolidado), com hipóteses de dispensa de elaborar o PGR que dependem do grau de risco e do levantamento preliminar de perigos; e o próprio texto diz que a dispensa não afasta as demais obrigações das normas regulamentadoras (item 1.8.5). Se a sua empresa se enquadra, e o que isso significa para a avaliação psicossocial, é pergunta para o profissional responsável pela segurança e saúde no trabalho, não para este post.
O diagrama com os setores medidos contra a linha do piso está na página da avaliação de riscos psicossociais da NR-1. Como o anonimato entra no planejamento da rodada está em como fazer a avaliação de riscos psicossociais.
Fontes
- Sweeney L. k-Anonymity: a model for protecting privacy. International Journal of Uncertainty, Fuzziness and Knowledge-Based Systems, 2002;10(5):557-570
- Machanavajjhala A., Kifer D., Gehrke J., Venkitasubramaniam M. l-Diversity: privacy beyond k-anonymity. ACM Transactions on Knowledge Discovery from Data, 2007;1(1):3
- NR-1, texto consolidado (Ministério do Trabalho e Emprego), item 1.8